No dia-a-dia e ao longo da nossa vivência, poucas vezes paramos para pensar como o patrimônio de uma comunidade ou região pode ser mensurado por meio dos saberes e tradições. Sim, saberes e tradições são patrimônios culturais e precisam ser valorizados e preservados. Esse entendimento é justamente o conteúdo das discussões do quarto módulo do curso gratuito “Educação Patrimonial: Conhecer para Preservar”, que começa neste final de semana. Serão três aulas na modalidade online e que estão reunindo quase 300 participantes de todas as regiões de Mato Grosso, de todos os estados do Brasil e, até mesmo de outros países, como a Bolívia.
Com o tema macro: “Conservação e Preservação de Patrimônio Cultural: Conceitos e Práticas”, a coordenação do curso traz para pauta de discussões três profissionais renomados, dentro e fora do país, para tratar da temática proposta. As aulas dessa etapa começam amanhã (7) e terminam no dia 13.
No sábado, das 9h às 13h, o módulo será aberto pela professora mestra Priscila Waldow, da Terracal Construção e Restauro, que vai trabalhar “Arquitetura, Urbanismo e Patrimônio Cultural: reconhecimento, valorização e preservação”.
Seguindo o sábado, das 14h às 18h, será a vez da professora doutora Ana Graciela Mendes Fernandes da Fonseca Voltolini, da Universidade de Cuiabá (UNIC), que conduzirá os alunos pelo conteúdo do tema “O patrimônio cultural como gerador de conhecimento: metodologia e prática de elaboração de artigos”.
Fechando o módulo, no dia 13, próxima sexta-feira, das 18h30 às 21h, acontecerá a aula: “Conceituando o Patrimônio Imaterial: Saberes, Práticas e Tradições”, com o professor mestre, Saulo Augusto de Moraes, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
ABORDAGENS – A professora Priscila Waldow, que é arquiteta e coordena pesquisas e projetos de restauração de bens imóveis e revitalização de espaços urbanos de interesse histórico, possui ampla experiência na condução de intervenções em patrimônio edificado no estado de Mato Grosso, e traz uma abordagem mais prática de todo esse módulo. “Vamos abordar os fundamentos do patrimônio cultural edificado sob a perspectiva da arquitetura e do urbanismo, com ênfase nas cidades históricas de Mato Grosso. O patrimônio construído será apresentado como expressão da memória coletiva, da paisagem urbana e dos modos de viver”, explica.

A professora também destaca que serão trabalhados conceitos como preservação, conservação, restauro e intervenção, articulando teoria e prática a partir de exemplos regionais, além de noções básicas de inventário, documentação e critérios de valoração do patrimônio edificado, considerando aspectos históricos, arquitetônicos e sociais.
“O encontro promoverá reflexão sobre os desafios contemporâneos da preservação diante das transformações urbanas, incentivando o debate sobre o que preservar, por que preservar e para quem preservar”, finaliza.
A professora Ana Graciela, vai abordar o patrimônio cultural como campo de produção de conhecimento e como objeto de investigação científica. “Estrutura e normalização de artigos científicos. Planejamento, redação, revisão e adequação às normas acadêmicas, com ênfase na elaboração do gênero artigo científico. Elaboração de artigo a partir de experiência, projeto ou investigação em educação patrimonial, articulando teoria e prática serão os temas centrais dessa aula”, resume.

O professor Saulo Moraes traz para a aula um estudo crítico dos fundamentos do conceito de patrimônio cultural enquanto campo de mediação, participação social e construção coletiva do conhecimento.
“Faremos uma análise da evolução do conceito de patrimônio cultural, desde a matriz material até a perspectiva antropológica e social que consagra o patrimônio imaterial e as referências culturais como categorias centrais. Exame das políticas públicas de preservação no Brasil, com ênfase no papel do poder público, nos instrumentos jurídicos, nos processos de registro e salvaguarda, e na interseção entre educação, memória, identidade e cidadania cultural. Reflexão sobre práticas educativas dialógicas que reconheçam os territórios como espaços educativos e as comunidades detentoras como protagonistas nos processos de patrimonialização e gestão”, antecipa.
Dentre os objetivos da aula, destacam-se a conexão entre patrimônio e educação; o conceito antropológico de patrimônio imaterial, abrangendo saberes, modos de fazer, celebrações, formas de expressão e lugares; a legislação que normatiza o campo, como o Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC); além, é claro, de relacionar o conteúdo da aula com Educação Patrimonial e elaborar propostas de ações educativas que promovam a apropriação social do patrimônio pelas comunidades.

“O conteúdo programado será tratado em aulas expositivas dialogadas, com análise de literatura especializada, documentos técnicos e processos de patrimonialização e o desenvolvimento de eixos temáticos articuladores, via utilização de recursos didáticos multimídia, análise crítica de projetos educativos em diferentes contextos”, completa o professor Saulo.
EXPECTATIVAS – O professor Saulo pontua que a Educação Patrimonial, particularmente quando focalizado no patrimônio imaterial, revela-se fundamental tanto para a consolidação de uma consciência social crítica acerca da diversidade cultural quanto para a efetividade das próprias políticas de preservação. “Tal abordagem educativa, alinhada à perspectiva antropológica que consagra o caráter dinâmico do patrimônio imaterial, contribui para a formação de sujeitos históricos capazes de ler criticamente seu território, mediar conflitos inerentes às disputas simbólicas e propor ações que conciliem memória, identidade e cidadania cultural. Para a sociedade, esse curso atua como instrumento de fortalecimento dos laços comunitários e de valorização da pluralidade que constitui a nação. Para o patrimônio, assegura que sua continuidade não se dê por meio de cristalizações impostas, mas sim pelo engajamento ativo dos grupos que o produzem e ressignificam, garantindo, assim, a sustentabilidade das práticas culturais e a efetiva apropriação social dos bens patrimonializados”.
Para Ana Graciela, a iniciativa em formar multiplicadores em educação patrimonial é muito importante. “Avalio essa iniciativa como fundamental, é urgente a realização de ações voltadas à formação de multiplicadores na área, um investimento que deve ser considerado como estruturante, na minha opinião. Além disso, a experiência de todos os envolvidos na iniciativa, da oferta gratuita e em formato híbrido, trata-se de uma excelente oportunidade, um ganho na qualificação e formação de recursos humanos”, defende.
A professora Priscila destaca que a formação de multiplicadores em educação patrimonial representa uma iniciativa estratégica para fortalecer a compreensão social do patrimônio cultural. Ao ampliar o debate para além dos órgãos técnicos, contribui para tornar a preservação uma responsabilidade compartilhada.
“No contexto de Mato Grosso, essa formação poderá fortalecer vínculos identitários, estimular o pertencimento e qualificar a atuação profissional e comunitária na proteção do patrimônio edificado, especialmente diante da necessidade de ampliar as ações de reconhecimento, inventário e proteção para todo o território estadual, ainda marcado por lacunas nesse campo. Nesse processo, é fundamental reconhecer a complexidade e a importância das comunidades tradicionais como detentoras de saberes construtivos, técnicas e modos de fazer que constituem parte essencial da cultura material e da memória construída do território”.
E vai mais além: “Valorizar esses conhecimentos implica compreender o patrimônio não apenas como objeto físico, mas como expressão viva de práticas sociais, ambientais e culturais transmitidas entre gerações. Trata-se, portanto, de uma ação com potencial de gerar impactos duradouros na valorização, na gestão e na transmissão do patrimônio cultural”.
O CURSO– Realizado pela Ação Cultural, em parceria com a SECEL-MT, o Conselho Estadual de Cultura de Mato Grosso, a UNEMAT e o IPHAN-MT, tem coordenação pedagógica das professoras Doutora Denise Argenta e Mestra Vivienne Lozi, e do professor Renato Fonseca. É composto por seis módulos, totalizando 180 horas de aulas teóricas e práticas, nas modalidades presencial e virtual e certificação. O cronograma conta com visitas técnicas em espaços culturais de Cuiabá e região metropolitana e uma saída de campo para mapeamento e reconhecimento de patrimônios culturais locais. As aulas tiveram início no último dia 6 de fevereiro e seguem até o dia 10 de abril.