Aula inaugural do curso “Conhecer para Preservar”, realizada no último dia 6, destacou inventário participativo, diversidade cultural e formação de multiplicadores em Mato Grosso
A aula inaugural da sexta edição do curso gratuito de Educação Patrimonial “Conhecer para Preservar”, realizada no último dia 6 de fevereiro, no Cine Teatro Cuiabá, marcou o início de uma formação que já nasce histórica. Com 290 inscritos, o curso reúne participantes de diversas regiões de Mato Grosso, de outros estados brasileiros e até de países vizinhos, consolidando se como uma das principais iniciativas de formação continuada na área do patrimônio cultural no estado.
Com formato híbrido, carga horária de 180 horas e certificação pela Unemat, o curso foi estruturado para ampliar o acesso à formação, oferecendo aulas presenciais e online, além de bolsas de ajuda de custo para participantes de fora da Baixada Cuiabana. A proposta é formar profissionais e agentes culturais capazes de atuar diretamente em seus territórios, promovendo reconhecimento, valorização e preservação dos bens culturais.
Patrimônio cultural como expressão da diversidade
Durante a aula inaugural, na manhã do dia 6, a arqueóloga e superintendente do IPHAN-MT, professora Ana Joaquina da Cruz Oliveira, apresentou a trajetória do conceito de educação patrimonial, as ações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e destacou que a atuação do instituto na preservação do patrimônio deve ser feita e parceria com a sociedade, que é a detentora dos bens culturais.
Já na tarde de sexta-feira, o arquiteto e superintendente de preservação do patrimônio histórico e museológico da SECEL-MT, professor Robinson de Carvalho Araújo, apresentou uma reflexão abrangente sobre a diversidade de patrimônios culturais existentes – dos patrimônios da humanidade aos bens tombados e inventariados no estado de Mato Grosso.
Na manhã do dia 7, a museóloga e diretora geral da Ação Cultural, professora Viviene Lozi apresentou aos alunos o conceito de inventários participativos. Tema que teve continuidade no sábado à tarde, com a aula da pesquisadora da UFMG e servidora do IPHAN, professora Sônia Rampim, que trouxe uma reflexão ampliada sobre o conceito de patrimônio cultural. Para ela, patrimônio não se resume a monumentos ou edificações históricas, mas representa as referências culturais dos diferentes grupos sociais.
Segundo a pesquisadora, pensar patrimônio é pensar memória, identidade e pertencimento. Ela destacou que o grande desafio está em compreender o patrimônio de forma diversa, reconhecendo os diferentes modos de vida, saberes, práticas e relações com o território que formam a sociedade brasileira. A educação patrimonial, nesse contexto, surge como um processo de mobilização social, capaz de aproximar as pessoas de suas próprias referências culturais.
Sônia também enfatizou que as comunidades já vivem o patrimônio no cotidiano, mesmo sem utilizar esse termo. Para ela, a educação patrimonial organiza esse reconhecimento, fortalece vínculos coletivos e amplia a consciência sobre o valor cultural, social e político dessas referências.
Inventário participativo como processo educativo
Um dos eixos centrais do curso é o inventário participativo, metodologia amplamente debatida neste primeiro módulo do curso, que tem como tema “Educação Patrimonial para a Cidadania”. Para Sônia Rampim, o inventário participativo vai além da produção de documentos ou relatórios. Trata se de um processo educativo que mobiliza as pessoas a olharem para o próprio território de forma diferenciada.
Ela explicou que o inventário participativo permite a construção coletiva do conhecimento, fortalece parcerias locais e organiza informações sobre as referências culturais mais significativas para cada comunidade. O foco, segundo a pesquisadora, está no processo e não apenas no produto final, valorizando o diálogo, a escuta e o envolvimento social.
Formação voltada à prática e à transformação social
A professora Viviene Lozi, que é também uma das coordenadoras do curso, junto com a doutora em museologia Denise Argenta, destacou que o inventário participativo é uma ferramenta fundamental para o fortalecimento das entidades culturais e das comunidades. Segundo ela, a metodologia possibilita a apropriação do patrimônio cultural, seja ele material, imaterial ou edificado, e contribui para a organização de demandas, acesso a políticas públicas e obtenção de financiamentos.
Viviene ressaltou que a mediação cultural, trabalhada ao longo do curso, deve ser conduzida de forma colaborativa, com participação ativa das comunidades em todas as etapas do processo. Para ela, são as próprias comunidades que detêm o conhecimento e a vivência do patrimônio cultural, cabendo aos agentes culturais atuar como facilitadores desse diálogo.

A professora também destacou que o curso vai além da formação técnica. Os participantes serão estimulados a promover inventários participativos em seus próprios territórios, além de ensaios e artigos científicos, que serão organizados em uma revista digital e compartilhados com a sociedade. A proposta é formar multiplicadores capazes de aplicar o conhecimento em ações concretas nos municípios.
Olhares dos participantes: juventude, tradição e gestão pública
Entre os participantes, a estudante de Arquitetura Ana Clara Chaves, de Cuiabá, avaliou que ainda há desconhecimento da população jovem sobre o patrimônio histórico da capital. Para ela, muitas pessoas enxergam apenas o abandono dos espaços, sem compreender sua importância ou saber como atuar para transformar . Ana Clara destacou que a interdisciplinaridade e as trocas entre os participantes são pontos fortes do curso, permitindo pensar a educação patrimonial para além do ambiente institucional.
De Várzea Grande, a presidente da Associação das Manifestações Folclóricas de Mato Grosso, Celi Minas Nova, destacou o trabalho desenvolvido com o cururu, o siriri e a viola de cocho. Segundo ela, o curso reforça a importância de mapear, valorizar e dar visibilidade ao patrimônio cultural imaterial, fortalecendo a identidade e a continuidade das manifestações populares.
O assistente técnico municipal David Senábio, de Cáceres, ressaltou que o curso tem impacto direto na atuação do poder público. Ele destacou que o município possui patrimônios tombados e outros que ainda precisam de reconhecimento e intervenção. A formação, segundo ele, será fundamental para dialogar com a comunidade e desenvolver projetos de preservação cultural.

Desafios no interior e a importância do reconhecimento político
A professora e museóloga Vilma Tolentino, de Sorriso, apontou como principal desafio o reconhecimento político dos espaços culturais. Ela relatou a experiência de criação do museu municipal e destacou a necessidade de maior apoio público para tornar o espaço mais acessível à população. Para Vilma, investir em educação patrimonial em cidades jovens é essencial para evitar problemas futuros de descaracterização e perda de memória.

Já o secretário de Cultura de Araguaiana, Wcleverson Batista, destacou que a busca pela formação fora do estado está diretamente ligada à necessidade de preservar patrimônios históricos, festas religiosas centenárias e práticas culturais tradicionais. Segundo ele, o curso oferece ferramentas para mobilizar a comunidade e aplicar um novo olhar sobre a preservação e valorização do patrimônio local.
Legado para Mato Grosso
A expectativa dos coordenadores do curso, professoras Denise Argenta e Viviene Lozi e professor Renato Fonseca, é que a sexta edição do curso “Conhecer para Preservar” deixe como legado uma rede de profissionais qualificados, capazes de atuar de forma integrada nos municípios, fortalecendo políticas públicas, iniciativas comunitárias e ações educativas.
Ao reunir professores mestres e doutores com reconhecimento nacional e internacional, aliados a participantes de diferentes realidades e territórios, o curso consolida se como um espaço de reflexão, prática e transformação social, colocando a educação patrimonial como elemento estratégico para o desenvolvimento cultural de Mato Grosso.