Pela primeira vez em Cuiabá, a museóloga Lucimara Letelier, diretora e fundadora do Regenera Museu, foi a responsável por conduzir as atividades da aula “Práticas Sustentáveis e Turismo Cultural Regenerativo” encerrando o segundo módulo do curso gratuito Educação Patrimonial: Conhecer para Preservar, no dia 28 de fevereiro, no Cine Teatro Cuiabá. A palestrante esteve à frente das aulas do período da manhã e da tarde, reunindo quase 300 participantes nas modalidades presencial e online, vindos de diferentes regiões de Mato Grosso, de outros estados brasileiros e também do exterior.
Com o tema “Práticas Sustentáveis e Turismo Cultural Regenerativo”, Lucimara apresentou um conceito inédito no contexto cuiabano e ainda pouco difundido no Brasil, propondo uma abordagem que integra cultura, patrimônio cultural, museus e crise climática a partir dos princípios da sustentabilidade e da regeneração aplicados ao turismo cultural.
Ao longo do dia, a museóloga articulou referências nacionais e internacionais como a Agenda 2030 da ONU, os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, diretrizes do Conselho Internacional de Museus (ICOM), do IPHAN e documentos da ONU e da UNESCO, conectando teoria e prática de forma acessível e aplicada à realidade dos territórios dos participantes.

TURISMO CULTURAL REGENERATIVO: ALÉM DA SUSTENTABILIDADE
Durante a aula, Lucimara destacou que o turismo cultural regenerativo ultrapassa a lógica da sustentabilidade tradicional. Enquanto a sustentabilidade busca reduzir impactos negativos e manter o que já existe, a regeneração propõe transformar positivamente os territórios, fazendo com que eles saiam culturalmente, socialmente e ambientalmente mais fortalecidos do que estavam antes da atividade turística.
Nesse sentido, o turismo regenerativo inclui a recuperação ativa de ecossistemas, o fortalecimento das comunidades locais e a geração de impactos positivos concretos, indo além da simples mitigação de danos. Ao ser incorporado ao campo do patrimônio cultural, esse modelo reconhece os saberes ancestrais e as práticas tradicionais como forças centrais para a regeneração dos territórios.
EDUCAÇÃO PATRIMONIAL COMO FERRAMENTA CLIMÁTICA
Em sua fala, Lucimara ressaltou que a educação patrimonial se consolida como uma ferramenta estratégica no enfrentamento da crise climática. Segundo ela, a mobilização das comunidades passa pelo acionamento da memória, do pertencimento, dos afetos e dos vínculos construídos historicamente com os territórios.
Os saberes de populações quilombolas, ribeirinhas, indígenas e também das populações urbanas foram apontados como fundamentais para a construção de futuros sustentáveis. Esses conhecimentos, transmitidos por gerações, orientam formas de viver, cuidar e se relacionar com o território e, muitas vezes, não estão registrados em documentos formais, mas se expressam na oralidade, na economia criativa, na contação de histórias, no bordado, nas manifestações artísticas e no cotidiano comunitário.
Ao destacar o protagonismo das comunidades locais, a museóloga enfatizou que os inventários participativos de saberes tradicionais permitem reconhecer esses conhecimentos como parte essencial das estratégias de regeneração cultural, ambiental e social, especialmente em regiões de grande relevância turística e ambiental.
METODOLOGIA E FORMAÇÃO DE MULTIPLICADORES
A metodologia adotada no módulo incluiu exposição dialogada, estudos de caso, dinâmicas participativas e atividades em grupo, estimulando os alunos a desenvolverem propostas aplicáveis aos seus próprios contextos territoriais. Foram abordados conceitos de sustentabilidade ambiental, social, cultural e econômica, além de práticas institucionais relacionadas à gestão de resíduos, uso de energia, economia circular, diversidade, inclusão e impacto social nos espaços de cultura.
No período da tarde, o aprofundamento do conceito de regeneração trouxe reflexões sobre bioregionalidade, patrimônio cultural vivo e desenvolvimento territorial, reforçando o papel dos museus e das instituições culturais como agentes formadores de uma geração de regeneradores, capazes de atuar diretamente no enfrentamento da crise climática.

PRIMEIRA VEZ EM CUIABÁ E EXPECTATIVAS
Em sua primeira visita à capital mato-grossense, Lucimara destacou o interesse em conhecer de perto o território, sua história, seu patrimônio e suas dinâmicas culturais. A expectativa, segundo a palestrante, é contribuir para que os participantes desenvolvam projetos culturais sustentáveis e regenerativos, alinhados aos desafios climáticos e sociais contemporâneos.
Ela também ressaltou a importância de fortalecer a rede nacional de mais de 300 alunos que acompanham o curso de forma online, apoiando a formação de lideranças culturais comprometidas com a dimensão socioambiental e com a regeneração dos territórios onde atuam.
CULTURA, PATRIMÔNIO E CORRESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL
Ao encerrar o módulo, a museóloga deixou uma mensagem direta aos alunos e profissionais da cultura. Para ela, gestores culturais, museus, parques, instituições e iniciativas ligadas ao patrimônio possuem corresponsabilidade no restauro socioambiental das regiões onde estão inseridos. Ser guardião do patrimônio cultural significa também assumir o compromisso com as questões ambientais e sociais que estão intrinsecamente ligadas à cultura.
A proposta apresentada no curso reforça que patrimônio cultural, ambiental e social caminham juntos e que a atuação integrada nesses campos é fundamental para a preservação dos territórios, da vida e da saúde das comunidades. Nesse contexto, a cultura se consolida como eixo estruturante para a construção de novos futuros possíveis, mais justos, resilientes e regenerativos.
O curso Educação Patrimonial: Conhecer para Preservar é realizado pela Ação Cultural, em parceria com a Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso, o Conselho Estadual de Cultura, a Universidade do Estado de Mato Grosso e o IPHAN-MT. Com coordenação pedagógica das professoras Dra. Denise Argenta e Ma. Viviene Lozi e do professor Dr. Renato Fonseca, a formação é composta por seis módulos, totalizando 180 horas de aulas teóricas e práticas, com atividades presenciais, online, visitas técnicas e saídas de campo, e segue até o dia 10 de abril.
