Experiências de diferentes regiões mostram como educação patrimonial, cultura e crise climática se conectam na prática
A última aula do módulo 2 do curso Educação Patrimonial: Conhecer para Preservar, realizada no dia 28 de fevereiro, no Cine Teatro Cuiabá, consolidou-se como um espaço de troca de experiências entre profissionais e agentes culturais de diferentes regiões de Mato Grosso. Ao longo do dia, participantes presenciais e online acompanharam as aulas conduzidas pela museóloga Lucimara Letelier, que apresentou os conceitos de práticas sustentáveis e turismo cultural regenerativo, articulando cultura, patrimônio e crise climática.
Segundo a palestrante, a educação patrimonial assume papel estratégico no enfrentamento da crise climática quando reconhece que essa crise é também cultural. Para ela, o acionamento da memória, dos vínculos afetivos e da relação histórica das comunidades com seus territórios é fundamental para mobilizar a população em processos de regeneração cultural, social e ambiental.
A diretora da Ação Cultural, Viviene Lozi, destacou que o módulo foi encerrado em alta, justamente por apresentar uma abordagem integrada da sustentabilidade, conectando economia, educação, questões sociais e meio ambiente. Viviene também ressaltou a forte participação dos alunos nas modalidades presencial e online, reforçando o interesse crescente pelos temas debatidos.
EXPERIÊNCIAS DO INTERIOR MOSTRAM APLICABILIDADE DOS CONCEITOS
Para Eden Costa, produtor cultural do município de Poxoréu, o conceito de turismo cultural regenerativo apresentado no módulo dialoga diretamente com práticas que já vêm sendo desenvolvidas no território. Ele explicou que a proposta se aproxima do turismo de base comunitária, ao ir além da criação de estruturas turísticas e buscar contribuir efetivamente para a melhoria das condições de vida das comunidades locais.
Segundo ele, a abordagem apresentada amplia a compreensão sobre a relação entre cultura, patrimônio e crise climática, mostrando que esses temas não podem ser trabalhados de forma isolada. “É preciso sair da ilha e trabalhar de forma transversal, para que a cultura contribua com mudanças reais na comunidade e gere impacto regional e até global”, avaliou. Eden também destacou o potencial da economia criativa – tema abordado na aula ministrada pela professora e também coordenadora do curso, Denise Argenta – como base de sustentação para fortalecer a diversidade cultural existente no município.
De Sinop, o bibliotecário André Tavares ressaltou a importância do protagonismo das comunidades locais, tema recorrente nas aulas. Para ele, esse protagonismo se concretiza quando as políticas culturais e patrimoniais chegam efetivamente à população, especialmente por meio das escolas, bibliotecas, museus e ações voltadas aos grupos mais vulneráveis.
André destacou ainda que o turismo cultural regenerativo pode contribuir para a preservação dos saberes tradicionais ao promover a conscientização sobre o uso responsável dos espaços e recursos culturais. Após o módulo, ele afirmou que pretende levar esse conhecimento para sua atuação profissional, disseminando os conceitos de educação patrimonial e patrimônio cultural nos espaços de aprendizagem e informação da cidade.

BARÃO DE MELGAÇO E O DESAFIO DO PANTANAL
A coordenadora de Turismo e Cultura de Barão de Melgaço, Terbany de Arruda e Silva, compartilhou a experiência do município no desenvolvimento de ações voltadas ao turismo de base comunitária em comunidades pantaneiras e ribeirinhas. Segundo ela, o conceito de regeneração cultural apresentado no curso dialoga com iniciativas já em andamento, como o fortalecimento da economia criativa, a realização de feiras e eventos culturais e o resgate de manifestações tradicionais como o siriri, a confecção da viola de cocho e a musicalidade pantaneira.
Terbany destacou ainda que um dos principais desafios para implementar práticas de turismo cultural regenerativo na região é a acessibilidade, especialmente durante o período de chuvas, quando comunidades ficam isoladas. Para enfrentar essa realidade, o município desenvolve projetos intersetoriais, em parceria com as secretarias de Educação e Agricultura, levando livros, atividades culturais e ações de incentivo à leitura às comunidades ribeirinhas por meio do transporte escolar fluvial.
A participante também apontou que o curso trouxe uma nova visão sobre patrimônios locais, como o Memorial da Guerra do Paraguai, permitindo pensar o espaço a partir das diretrizes dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Segundo ela, o conhecimento adquirido será aplicado no fortalecimento das ações culturais e ambientais do município, ampliando o cuidado com o patrimônio material e imaterial.
ACESSIBILIDADE COMO DIREITO E CONDIÇÃO PARA A CULTURA
Ao final das atividades, o tradutor e intérprete de Libras Josemar Macena ressaltou a importância da acessibilidade em eventos culturais e formativos. Para ele, a ausência de recursos de acessibilidade compromete o caráter coletivo do patrimônio cultural. “Sem acessibilidade, o patrimônio deixa de ser de todos”, afirmou.
Josemar explicou que a atuação da Libras vai além da tradução literal, garantindo participação real, integração e acesso ao conhecimento produzido nos espaços culturais. Segundo ele, o trabalho do intérprete exige preparo técnico, estudo prévio dos conteúdos e domínio de sinais específicos para assegurar que as pessoas surdas compreendam plenamente as informações apresentadas.
O curso de educação patrimonial é uma realização da Ação Cultural, em parceria com a Secel-MT, o Conselho Estadual de Cultura de MT, o IPHAN -MT e a UNEMAT e tem coordenação pedagógica das professoras Dra. Denise Argenta e Ma. Viviene Lozi e do professor Renato Fonseca.
O segundo módulo do curso reforçou, assim, a importância de uma educação patrimonial inclusiva, integrada e comprometida com a regeneração cultural, social e ambiental dos territórios, reunindo diferentes vozes e experiências em torno de um objetivo comum: conhecer para preservar e transformar.